A Criança no Nevoeiro
Encheu o fornilho de fumo ruim, uma marca barata de sabor menta. Era o único que tinha e serviria para esta noite. Ganhou a noite cinzenta da varanda. Em pé, como costumava ler poesia, acendeu o fumo com o isqueiro branco barato. Pouxou a fumaça do fumo que resistiu em queimar. Conseguiu uma brasa persistente apenas na segunda vez. Quando só restavam cinzas, esvaziou o conteúdo e abasteceu novamente o cachimbo, desta o isqueiro foi necessário apenas uma vez.
O estomago vazio era proposital.
Agora as volutas do fumo reuniam-se ao clima nublado e enevoavam sua visão o sabor, o odor e a tontura – quase como a de algumas cervejas – ajudava sua meditação. No meio da névoa ele via a criança.
O menino está sentado na mercearia no andar de baixo da casa do tio observando os adultos jogando baralho, berrando, bebendo e fumando seus palheiros embaixo das voltas de salame dispostas nas vigas de madeira. É uma tarde ensolarada e colorida.
Quando esta segunda carga acaba a criança se vai, acaba a tarde, a cor se desbota uma lembrança tão fantasiosa como as histórias de saci que a criança escutava.
A realidade concreta é fria e cinza, como as cinzas que agora despejava no lixeiro.
