Castigo [microconto]

Chegou ao trabalho cedo, mais quieto que o de costume, agarrou-se ao rodo e declarou que decidira esfregar o chão – é bom pra disfarçar o caminhar – pensou.

Não foi a única coisa que pensou entre o vai-e-vem do pano-de-chão, afundado no cheiro da água sanitária que disfarçava o cheiro de gente velha que sempre odiou – mas hoje mais do que nunca.,/p>

Pensou se tudo isso que as vezes lhe ocorria, a raiva por alguma malcriação, a graça que via na boca banguela ou na flatulência de um outro não seria o motivo que o levou a esta dor tão intima.

Já não acreditava em deus há tempos e fosse mesmo um castigo, que castigo vil, pervertido, muito longe do velhinho bonzinho na nuvenzinha branca em quem um dia acreditou. Mas talvez o Deus de verdade seja esse do seu encontro na noite passada. Um velho forte e impiedoso a foder-lhe o rabo.

Abanou a cabeça e continuou a esfregar, resignado.

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