Uma (Quase) Epopéia do Cinema Independente Ou Quando Patobranquenses inventam de fazer cinema

Pra quem tem R$ 40,00 filmar quinze minutos é uma eternidade.

– Marcelino Freire sobre Cacilda

Cartaz do Cacilda

Cacilda

Esta não é uma resenha, não é uma critica. Em certa cena brasileira, sendo um mercado de nicho muito pequeno, é comum que os próprios autores, ou editores, resenhem seus próprios produtos. Sempre fui contra a prática, não que acredite na imparcialidade – tais coisas não existem – mas ler a resenha escrita pelo autor da obra é adivinhar de antemão seu lado, além de perder a graça, perde também a credibilidade logo de cara. Como estou envolvido no projeto sobre o qual escreverei, vamos chamar este texto de release critico – nome que julgo adequado.

AVISO: O filme, em duas partes no You Tube está postado ao final da resenha.

Quarenta reais, uma garrafa de conhaque de sete e muito tesão. Sangue feito com corantes e xarope de glicose e um espírito meio gonzo/meio “ver no que vai dar” foram os combustíveis de Cacilda: Plástico e Sangue, primogênito da Every Movie Movies, produtora de um homem só sediada na folclórica Pato Branco  – PR. No que deu, é o que vou lhes contar em seguida:

De inicio vemos o protagonista contando aos amigos que está apaixonado. Estes amigos são caricatos e de fácil identificação – como reza um curta, sem tempo para desenvolver qualquer personagem. – Rodrigo (Thiago Orlandin), o protagonista, romântico, Hugo (Alexandre ‘Chegado’ Muller), dono de um humor doentio e escatológico, o alivio cômico do curta e Joel (O autor da matéria), narrador da história e não muito mais do que isto. Em seguida somos apresentados (privilégio que os outros dois amigos não têm) à feliz rotina conjugal de Rodrigo e Cacilda (um manequim de plástico, sem cabeça e braços), é quando conhece Mel (Tâmisa Tiveroli), garota dominadora e cruel que a história de amor acaba em tragédia.

O desenlace e clima lembram os quadrinhos despretensiosos, satíricos e críticos da turma da Circo e da Chiclete com Banana, de onde saíram os mestres Angeli, saudoso Glauco, Spacca e o gênio Laerte, entre outros (lembro agora do clima das histórias clássicas ‘A Noite dos Palhaços Mudos’ e ‘Penas’ no seu leve surrealismo e crítica social). Talvez levado por esta lembrança oitentista eu tenha composto duas peças (não ouso chamar poemas – e realmente não são) inspiradas em Cacilda – uma com título-sátira a uma música da Legião Urbana – aqui sem tradução de Millôr Fernandes – e outra algo inspirada no estilo de Arrigo Barnabé, compositor paranaense de operas-rock inspiradas na cultura pop (novamente quadrinhos – desde os anos oitenta talvez a mais vanguarda de todas as artes), imagino esta peça logo depois de ‘Num Antro Sujo’ do clássico Clara Crocodilo (Certamente Mel freqüentaria o bar ‘diversões eletrônicas’). As duas seguem no final do texto. Mas devo esclarecer que o diretor não conhece e não tem interesse em quadrinhos – uma pena.

O roteiro é bem executado, com uma história bem amarrada e funcional. A direção é inexperiente, orçamento pífio e edição e filmagens caseiras. Algumas cenas demoram demais (na cena do beijo você pode querer avançar um minuto, sem prejuízo), outras abusam de algum efeito de edição, outras cenas são tremidas e/ou mal enquadradas (que podemos atribuir ao curto período de filmagens – 3 dias – e a um acidente com as imagens de uma das duas ‘câmeras de churrasco’ utilizadas). As cenas onde os três amigos estão juntos (num primeiro momento seria um bar, mas as gravações foram um desastre) foram filmadas com câmera parada, a todo momento captando as reações dos três atores, uma proposta de linguagem mais teatral, pensado para economizar nos cortes de um filme tão curto.

A trilha sonora é excelente (por sorte, é um filme não comercial – já que as três músicas possuem direitos autorais não recolhidos – óbvio!), bem escolhida e com timming perfeito.

As atuações são dignas do elenco de Malhação (irregulares durante todo o filme no elenco inteiro).

Temos que citar o belíssimo cartaz desenhado (que você vê na abertura do post), colaboração interestadual da artista Xaxinense Ana Carolina Orlandin. Um trabalho que tem vida própria, bela alegoria do filme, e reinterpretação do tema e história. Ponto indireto mas que contribuiu para engrandecer o conjunto da obra.

Apesar de todas as falhas acima, as qualidades se sobressaem e o resultado excede as expectativas, um filme Z que não reza a cartilha da linguagem TRASH, apresentando uma história interessante, que vale a pena ser assistida e de direção inexperiente, mas talentosa de João Faccio.

Feedback Song for a Dying Doll

Matei Cacilda

Desenterrei Cacilda

Vênus Alquímica amante

Decapitada

Sangue de glicose e corante

Musa de Plástico

Muda

De um outro Universo Midiático

Emilia de alcova

Mas dizem que o plástico não se decompõe por 100 anos

Por 100 anos inerte

Modelo e Manequim de eterna firmeza

Ah! Prazer de necrofilia: cadáver não biodegradável.

A Morte da Boneca de Plástico(A balada de Cacilda)

Três vidas, movidas a fichas. Cacilda morreu, assassinada. Musa muda de Plástico de um outro universo midiático. Doce Vênus decapitada, alquímica, do sangue de glicose e corante. Modelo/Manequim da beleza não biodegradável. Foi Rodrigo quem matou, Mel que mandou. Rodrigo executou! Matou! Covarde, não agüentou. Com sua vida acabou. Covarde. Foi a mesma faca que usou. Mel, com seu véu e boca de fel o epitáfio compôs: Cuiabá deixa o inferno no Chinelo. Pulo uma ficha, cheio de receio. A última é minha. E ainda não suguei seu formoso meio-do-traseiro. Buraco Negro.

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Comments
6 Responses to “Uma (Quase) Epopéia do Cinema Independente Ou Quando Patobranquenses inventam de fazer cinema”
  1. Waldir Felippe disse:

    Cara, vcs são doentes háháháhá

  2. TAYRO disse:

    Curti.

    O diretor JF vai longe,

    sexo, sangue , plastico e boa trilha sonora,

    parabens
    abraço

  3. Paulo disse:

    Não achei grande coisa. Não por causa da qualidade, que tá ok… Mas essa historia é sem graça, as atuações são fracas e forçadas. A edição ficou muito boa, tanto video quanto áudio.

    Boa experiência, pessoal… Mas essa historia não me interessou nem um pouquinho.

  4. @rockzbaka disse:

    tenho uma coisa pra te dizer, to apaixonado =[

  5. Vani disse:

    Nomes femininos bem escolhidos. Não sei qual a pior: a mulher esperta ou a sem cabeça… doentio e confuso, mas gostei. Parafilia.

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  1. […] Uma (Quase) Epopéia do Cinema Independente Ou Quando Patobranquenses inventam de fazer cinema agosto, 2010 5 comentários 3 […]



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