[review] TRAPO – Cristovão Tezza

O professor aposentado Manoel, pequeno traste simpático, como define em sua cuidadosa amargura tão cultivada quanto sua velha casa, espremida entre os prédios, cuidada como a rotina auto-imposta que criam os velhos para levar a vida têm sua inércia interrompida pela figura explosiva, vulgar, colorida de Izolda Petroski, dona de pensão.

Izolda, instruída por um inquilino, traz dois embrulhos de papéis ao professor. São cartas, contos, poemas, misturas dos dois, deixadas por um certo Trapo, poeta marginal que cometeu suicídio na pensão de Izolda. A dona da pensão quer que Manoel descubra se há algum valor naquilo que ela suspeita ser o legado de um gênio.

Manoel aceita a incumbência mais para não confrontar a mulher do que pela possibilidade de Trapo realmente ser um poeta interessante. A partir de então vemos a evolução do professor em sua pesquisa, cada vez mais envolvido na vida de Trapo, no mistério de sua morte, que é muito maior que a obra deixada e do relacionamento com Izolda, que passa a frequentar a casa do aposentado para acompanhar a pesquisa, acaba por dispensar a diarista e tomar o serviço de casa para si.

As pequenas mudanças que se operam na personalidade do ex-professor também são um detalhe saboroso ao longo do livro, a adoção ao álcool, as pequenas transgressões à sua costumeira passividade na forma de observações ferinas que depois são analisadas, dissecasa no efeito que provocam. Um velho solitário aprendendo a relacionar-se.

O humor, aliás, é uma grata surpresa em uma obra que fala tanto e tão bem da carrancuda Curitiba. Sobre esta cultura do mau-humor que paira e é famosa na cidade só podemos especular (e o clima é sempre apontado como suspeito), mas a passagem em que Manoel conhece a “Bodega” – bar freqüentado por Trapo – traduz perfeitamente o espírito da cidade “Uma conclusão filosófica. Em Curitiba, minha doce Curitiba, todos querem falar e todos se arrependem de falar.”

O próprio Trapo – conhecemos susas cartas e poemas intercalados com a história principal ao longo do livro – é representativo da literatura curitibana – o próprio Tezza nega, mas é impossível não lembrar de Leminski lendo a obra de Trapo. Dalton Trevisan, além de ser citado também empresta um tiquinho de influência ao Trapo. O poetinha tresloucado, caótico mas carismático, conquista tanto a simpatia de Manoel como a nossa na empolgação e angústia adolescente da sua literatura.

Este Trapo foi o primeiro romance de destaque de Tezza, publicado em 1988 e já conta com toda a segurança narrativa e precisão da palavra que são as características do estilo do autor. Uma obra que merece ser lida e mantida no acervo de qualquer entusiasta da literatura.

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