NYC – PBO

Na fronteira de luz vejo a casa dividida em duas. De um lado a cozinha e sua cor branca, estéril, do outro a iluminação amarela da sala, menos clara, mais humana.

Sigo a réstia de escuro, me acomodo no sofá, uma dose, um DVD dos favoritos, o ritual do cachimbo. Agarro-me às volutas do fumo, o odor perfumado, o sabor pungente, agora vejo o mundo pelo filtro enevoado, os sentidos em singular excitação.

A voz me lembra da música, um sussurro, um lamento seguro que sustenta aqui dentro a fragilidade do mundo que despenca, quebra, se estilhaça lá fora. A banda que acompanha esta voz é precisa, cirúrgica, discreta, sinfonia de quase-silêncios que embala a semi-solidão desta noite.

Percebo a voz como uma lâmina bela e cortante que se projeta do mundo em pedaços, abre feridas que acreditava fechadas. E sorrio. A música me dá este prazer sado masoquista de me reconhecer na dor do registro e gostar.

Mas de repente percebo-me claustrofóbico, levanto, apago as luzes e frente ao vazio deixo Beth Gibbbons me guiar até um breve nirvana. A felicidade possível.

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