Paulo Menas, Assassino do Quixote

Faltam cinco minutos para o fim do mundo. Aos leitores mais impressionáveis peço calma, pois este é o típico inicio de texto para agarrá-los e se reconheço minha culpa na utilização deste recurso literário justifico dizendo que é por um bom motivo. Falo aqui, caros leitores, do seu fim, fim dos recursos literários, fim da literatura enfim.

Se a literatura e os livros acabariam é uma discussão velha e inconclusiva ainda na época em que se passa esta história, em um futuro não muito próximo. Havia os céticos (sempre há céticos) relativizando, agarrando-se a mais fraca evidência, esperneando até o fim (ceticismo é teimosia). E havia aqueles que tinham certeza, nossos profetas do apocalipse. Mas estes profetas não se entendiam quanto a como e quando seria este fim, cada um tinha seu prazo preferido e seu evento final previsto (mas apocalipses nunca chegam na hora marcada e nunca vem da forma anunciada). As previsões mais assombrosas, contudo, não adivinhariam um fim mais prosaico, mundano. Um fim sem cara de Apocalipse.

Decidido a vingar-se do penoso trabalho de aula Paulo dedica-se em seu programa de edição a uma reedição resumida do Quixote à moda das populares mensagens de internet. Nela o “cavaleiro da triste figura” reencontrava a alegria de viver ao lado da recauchutada Dulcineia, recém saída do Spa Moinhos de Vento para onde enviariam Sancho em seguida.

Mesmo reconhecendo a atualidade e a importância do próprio texto, Menos conservou a assinatura de Miguel de Cervantes e enviou a mensagem cheia de luzes e movimentos a seus colegas de classe.

Logo a mensagem chegou à professora, que nunca havia lido o livro (uma adaptação de 100 páginas outrora classificada como infanto-juvenil e que agora compunha uma coleção destinada à “geração pós-twitter”). Emocionada pela mensagem positiva, reenviou a mensagem aos seus contatos e rapidamente o “Quixote de Cervantes” conquistou a internet.

O êxito só fez inflar o ego do rapaz que, Homero às avessas, iniciou uma profícua carreira reescrevendo os clássicos. Assim “Instantes de Jorge Luiz Borges” e os tantos apócrifos de Pessoa, Drummond e outros passaram a ter a companhia dos grandes nomes do cânone literário mundial internet afora.

Paulo Menas fez fortuna na publicidade. Da literatura há tempos não se tem notícia.

 

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Um contículo baseado em uma pergunta que esqueci de fazer aos autores do ciclo “Autores e Idéias V” (que desta vez não foi com a minha moderação aqui em Pato Branco):

 

Durante este ciclo a palavra e a idéia de um apocalipse das letras permeou a discussão, uma das idéias mais difundidas sobre este fim da literatura é o do tolhimento da escrita (e da leitura) por parte do estado, mas assim como o Big Brother se tornou “realidade pelo avesso” (é o público que escancara sua privacidade, não o governo que o obriga) não seria possível pensar em um esvaziamento da literatura por conta da quantidade cada vez maior de textos apócrifos na internet? Se hoje todo mundo acredita em textos absurdamente ruins atribuídos a um Fernando Pessoa da vida, que dirá quando a internet for a nossa principal fonte de conteúdo literário corremos o risco de ver trabalhos escolares sobre textos apócrifos?

 

Não duvido porque já vi!

 

P.S.: Queridos amiguinhos visitantes deste blog, uma bala 7 belo para quem adivinhar o autor e conto ao qual o meu continho faz referência (e reverência). Fácil.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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Comments
3 Responses to “Paulo Menas, Assassino do Quixote”
  1. x-nesky disse:

    Daí, rapaz. Poxa, é uma boa pergunta, e preciso confessar que eu nunca tinha pensado nela. Assim: acho que não. Texto apócrifo geralmente é enviado por pais e avós. Embora eu tenha sido meio apocalíptico, não acho que a literatura vai acabar, nem nada assim. E, direi mais: acho saudável o texto apócrifo, pois brinca com a questão da autoria. Normalmente não respeitamos um texto de João Ninguém, mas lemos com atenção se está assinado por Fernando Pessoa. Acho que a falta de rigor dessa troca de e-mails internética põe em xeque muitos preconceitos relacionados à autoria.

  2. Paulo disse:

    Muito bom. Só não devia ter deixado tão óbvio o autor referenciado (ou melhor, reverenciado?!) ao citá-lo no próprio conto…

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