A Rede Social de Zuckerberg

Diz-se que a virtude em se contar uma boa história é saber onde parar. Com o fim certo qualquer história ganha a dimensão e a tensão que se deseja. Eu diria que a virtude de uma história é como ela chega ao final (storytelling não é uma das palavras da moda a toa).

Quase todos os filmes “baseados em fatos reais” escolhem um recorte ou desenvolvem uma situação acontecida de maneira que ela tenha a “pegada” de uma história ficcional onde tudo está correlacionado, os personagens cumprem cada um seu papel e os fatos somam-se até chegar a uma conclusão lógica (ainda que inesperada, deve fazer sentido, ser explicada, ter deixado rastros ao longo do filme)

A cena inicial de “A Rede Social” mostra Mark Zuckerberg brigando com sua namorada e dá a entender que o filme vai tratar de um sociopata, construir o fundador do Facebook como um vilão, a dinâmica que todos esperavam do filme afinal (e não é essa a única maneira de retratar um empresário multimilionário?). Mas o filme surpreende. O Zuckerberg de Fincher é um nerd clássico comum, um tanto deslocado, obcecado, inepto socialmente (o que é um bom punhado dos sintomas de asperger) e são estas características que levam o personagem a cometer uma série de atitudes (incluindo aquelas que o filme apenas sugere que ele tenha tomado) eticamente reprováveis, mas que vem apenas da maneira particular do Zuckerberg ver o mundo (uma vingança dos nerds maquiavélica).

Ao longo do filme o protagonista se mostra até ligeiramente ingênuo, fascinado pelo programador rockstar Sean Parker que sintonizado com a ideologia Hacker-cyberpunk leva Zuckerberg a tomar uma série de decisões que o afastarão do seu amigo brasileiro Eduardo “Wardo” (que é o mais próximo que temos no filme de um estereótipo do herói). Sim, Hacker-cyberpunk! Zuckerberg, logo nas sequências iniciais, surge Hackeando diferentes sistemas de Harvard e montando um site de comparação das alunas só para provar que pode, mais adiante “rouba” a idéia de dois atletas para um site de relacionamento que se aproveitaria da exclusividade de Harvard porque eles não valiam a pena como sócios (na verdade a idéia dos atletas é ruim e o conceito de rede social já existia, mas não com o foco em atividades da sua rede de contatos do Facebook que é realmente o trunfo do site). Quando o site já é realidade reluta em adotar um modelo de negócio baseado em publicidade “ainda não sabemos o que é o site” “Ainda não sabemos aonde podemos chegar” “não vamos estragar o fator ‘legal’ com publicidade”.

“A rede social”, foca nos personagens e em um recorte específico de tempo, não é um filme nem de negócios nem biográfico e nem de longe aborda as mudanças de comportamento que a cultura da rede social provocou, mas retrata esse momento da história em que nerds podem levar o estilo de vida de rockstars e de bermudas e chinelos, nada de armas, bandeiras ou guitarras começam a realizar o sonho de todo revolucionário ou punk – implodir o sistema, mas criando um modelo de sociedade ao qual não se pode escapar, mas que ainda não sabemos ao certo qual é e nem onde vai chegar. Mas esta é uma leitura levando em conta o contexto. Estes pontos, como já declarei, não aparecem em nenhum momento do filme que poderia se passar na década de 80 ou 90 sem prejuízo para a estrutura em si. Se é uma falha do Fincher em não trazer esta contextualização para o filme não sei, mas creio que todos sabemos a profundidade com que as redes sociais e as novas maneiras de relação estão trazendo para a nossa sociedade.

Não que Zuckerberg não seja ambicioso, ele realmente queria entrar para um dos “clubes exclusivos”, realmente ficou enciumado quando o amigo/sócio foi convidado. Mas tudo isso perdeu o sentido frente à idéia do Facebook (por isso a esnobada/enrolada nos dois atletas que poderiam ser um passaporte em potencial para esta pequena obsessão). Se porque o empresário sabia do potencial monetário ou se sabia da revolução que estava prestes a promover, não tem importância.

Algo que pode incomodar é que o filme parece “não acabar”. Não tem tensão dramática. Aborda uma série de questões, as deixa em aberto e não foca em nenhuma. Isso significa que o filme é ruim? Não. É um filme interessante, com boas atuações e cumpre seu objetivo. E assim como a vida real, na qual é baseado, algumas histórias não chegam a um fim, nem tem um período definido para acabar e nem todas as pontas se fecham.

Notas soltas:

1) Justin Timberlake poderia parar AGORA de cantar e dedicar-se apenas à carreira de ator.

2) Depois de ver Andrew Garfield atuando como Eduardo começo a me empolgar com o novo Homem Aranha 🙂

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Comments
2 Responses to “A Rede Social de Zuckerberg”
  1. Tejo disse:

    Achei o filme bonzinho; nada além disso. Houve muito auê, naturalmente, levando-se em conta o hype que é o FB.

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  1. […] This post was mentioned on Twitter by José Roberto Vieira. José Roberto Vieira said: > @noah_mera: Sobre "A rede social": https://noahmera.wordpress.com/2011/01/17/a-rede-social-de-zuckerberg/ […]



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