Um Pequeno Post Para uma Pequena Polêmica

Já há alguns dias vem se desenrolando pelos meios de comunicação uma polêmica vazia sobre o livro do MEC “Por uma vida melhor” que supostamente validaria a fala e escrita “errada”. Não é nada disso (leia o capitulo aqui) e todo esse circo só pode ser atribuído ou a falha na educação dos jornalistas (incapazes de interpretar o texto – ainda que eu saiba que na faculdade de jornalismo os alunos tenham contato com as modalidades de língua de que trata o texto criticado. Teriam faltado todos a esta aula?) ou a má vontade (política). Acho que não há argumentos a acrescentar sobre o fato e a motivação para este post vem de um trecho do livro “Aula” do grande Roland Barthes que estou relendo.

Abaixo da citação vou colar o video do youtube onde Marcelino Freire e Cristovão Tezza discutem o caso  e o link que a amiga Sharon compartilhou no Greader com a análise de José Miguel Wisnik. Para que não restem dúvidas.

Nenhuma “história da literatura” (se ainda se escrever alguma) poderia ser justa se se contentasse, como no passado, com encadear escolas, sem marcar o corte que põe então a nu um novo profetismo: o da escritura. “Mudar a língua” expressão mallarmeana, é concomitante com “Mudar o mundo”, expressão marxiana: existe uma escuta política de Mallarmé, daqueles que o seguiram e o seguem ainda.

Segue-se daí uma certa ética da linguagem literária, que deve ser afirmada porque ela é contestada. Censura-se frequentemente o escritor, o intelectual, por não escrever a língua de “toda a gente”. Mas é bom que os homens, no interior de um mesmo idioma – para nós o francês – tenham várias línguas. Se eu fosse legislador – suposição aberrante para alguém que, etimologicamente falando, é “an-arquista” – longe de impor uma unificação do francês, quer burguesa, quer popular, eu encorajaria, pelo contrário, a aprendizagem simultânea de várias línguas francesas, com funções diversas, promovidas à igualdade. Dante discute muito seriamente para decidir em que língua escreverá o Convívio: em latim ou em toscano? Não é absolutamente por razões políticas ou polêmicas que ele escolhe a língua vulgar; é por considerar a apropriação de uma ou outra língua a seu asssunto: as duas línguas – como pra nós o francês clássico e o francês moderno, o francês escrito e o francês falado – formam assim uma reserva na qual ele pode abeberar-se livremente, segundo a verdade do desejo. Essa liberdade é um luxo que toda sociedade deveria proporcionar a seus cidadãos: tantas linguagens quanto desejos houver: proposta utópica, pelo fato de que nenhuma sociedade está ainda pronta a admitir que há vários desejos. Que uma língua, qualquer  que seja, não reprima outra: que o sujeito futuro conheça, sem remorso, sem recalque, o gozo de ter a sua disposição duas instâncias de linguagem, que ele fale isto ou aquilo segundo as perversões, não segundo a lei.

A opinião de José Miguel Wisnik

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