Vamos comer Wando – O mito do macho jurubeba

ESTA É UMA VERSÃO PRELIMINAR DO ARTIGO PUBLICADO NO SITE DIGESTIVO CULTURAL

A necrofilia da arte
Dá meu endereço a quem não gosto
A necrofilia da arte
Faz compreender quem não conheço
Pato Fu – A necrofilia da arte

Depois de morto, todo mundo vira santo observa a sabedoria popular. Acho que é natural essa revisão, procurar o que há de bom nos feitos e na vida de qualquer pessoa falecida, não por alguma inclinação gentil da humanidade mas sim porque a morte nos espanta. A morte, só se sabe a dos outros, e ainda é a prova última da igualdade de toda  a raça dos humanos. Nas inigualáveis palavras do poeta Ariano Suassuna o morto Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Se a morte nos iguala, acho que os elogios póstumos não vem de nenhum altruísmo, mas sim até de um certo egoísmo motivado por essa empatia forçada diante do mistério. Fazemos pelo morto o que queremos que seja feito por nós.

Mas outro movimento também é tão natural quanto essa identificação súbita. Sempre há alguém a nos lembrar que o morto não era esse santinho que andam pintando… Levando essas inclinações e reações à morte dos artistas e ao velório público em que se pode escutar toda a conversa de canto de todos os convidados que se torna a internet a conversa logo descamba para a legitimação da obra do artista.

Quando o morto é algum artista o fenômeno é ainda mais visível.  Baixamos nossa guarda quanto ao julgamento moral e estético e assim podemos nos pegar elogiando as qualidades de quem implicamos a vida inteira – quiçá descobrir uma admiração antes impossível. É a morte vencendo a barreira do tecladinho de churrascaria e quetais, levando aqueles fenômenos de consumo que seguem a morte dos artistas. É isso que identifica a Rosana no artigo publicado hoje, em que ela analisa alguns tweets sobre a morte do cantor Wando e comparando com os dedicados à Amy Winehouse.

Eu nunca fui o público do Wando. Nunca escutei UMA música inteira do Wando (nem “Fogo e Paixão” que eu só conheço o refrão que TODO MUNDO CONHECE) mas sempre tive a maior simpatia pela figura do cantor. Wando, Amado Batista, Odair José e semelhantes são representantes e porta-vozes de um tipo folclórico de brasileiro – o macho romântico como define Xico Sá (seu panegírico dedicado ao Wando é OURO). Feliz do país que conta com um tiozão colecionador de calcinhas no meio artístico!

O Brega é o nosso punk. É música feita do povão para o povão, mas sem a parte carancuda – que música é lugar de festa, cerveja, suor e sexo e defender o seu é na labuta de sol-a-sol. Estilo sincero e consciente de si, os artistas do brega nunca se levam muito a sério – Quer mais brasileiro que isso? Acho que é essa falta de artifícios que afasta a pretensa “inteligentsia” mais que a tosqueira da produção. Quem vê aquela montagem comparando “Aí se eu te pego” do Teló com uma letra pedantíssima (méh!) do Renato Russo sabe do que eu estou falando.

E é assim que me sinto credenciado, mesmo conhecendo patavina da obra do Wando a saudá-lo! E que não vejam com desrespeito o conto que escrevi no dia de sua morte – Vida e morte de um outro rei do brega. É só um recorte.

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