Lendo 1984 nas entranhas da baleia

1984 é um livro de ficção especulativa que narra um mundo dividido em três “super-nações” governadas por regimes totalitários em constante guerra entre si. Winston, o personagem principal, é um funcionário do ministério da verdade, responsável pela fabricação de notícias e invenção de verdades absolutas para o partido e a anulação sistemática de qualquer evidência documental que seja contrária aos interesses do Grande Irmão (uma personificação dos altos escalões do partido, sem existência física, mas um rosto e um nome onipresente na cultura da Oceania, o grande bloco ao qual faz parte a Inglaterra, onde se passa o romance). Os interesses do partido resumem-se basicamente na permanência do poder através do medo, paranóia e desinformação disseminados entre a população.

George Orwell foi um dos maiores cronistas da cultura inglesa do século XX, destacando-se pelos escritos políticos. Defensor de um socialismo democrático e do liberalismo, Orwell foi um agudo observador de sua realidade e 1984 pode ser entedido por esse viés – pista dada na óbvia inversão dos dois últimos algarismos do ano em que o livro foi escrito – a melhor ficção científica sempre especula sobre os fantasmas ou esperanças de seu próprio tempo.

Um bom livro para entender o raciocínio que levou Orwell a criar a sociedade distópica regida pelo Grande Irmão é a coletânea de ensaios “Dentro da Baleia”. Em vários dos ensaios, todos escritos em torno de 1940, encontramos um autor desiludido, que não vê saída para a humanidade a não ser entrar em uma “era de regimes totalitários” (Dentro da baleia, escrito em 1940).

Outro ensaio importante é “Escritores e Leviatan” de 1948 (um ano antes da publicação de 1984) onde ele identifica o fenômeno de que, ao adotar qualquer ortodoxia política, herdamos uma série de contradições advindas do choque de realidade destas ideologias quando postas em prática. Um exemplo dado no ensaio é do da revolução Russa – o autor relata que toda a esquerda inglesa foi levada a aceitar o regime russo como socialista, embora o espírito e a prática do regime fossem completamente diferentes do que se entendia por socialismo na Grã-Bretanha. O escritor diz que isso leva a um modo esquizofrênico de pensar em que palavras como democracia comportam dois sentidos irreconciliáveis. Esse pensamento está presente em 1984 no conceito do “duplipensar” – a aceitação de duas verdades antagônicas sem questionamento – que está no lema do partido “Guerra é Paz; Liberdade é Escravidão; Ignorância é Força”. De fato o último martírio de Winston após preso por sua subversão é ser levado a aceitar, por meio de tortura, que dois mais dois pode ser cinco, se conveniente.

Outro ensaio surpreendemente revelador quando confrontado com 1984 é “Wells, Hitler e o estado mundial” em que Orwell contesta a visão otimista do grande escritor de ficção científica que acreditava que o advento da ciência levaria a um estado mundial planejado contra um “estado reacionário que tenta restaurar um passado confuso”. “De um lado ciência, ordem, progresso, internacionalismo, aviões, aço, concreto, higiene; de outro, guerra, nacionalismo, religião, monarquia, camponeses, professores de grego, poetas, cavalos”. Identifica que o avião, um dos símbolos deste otimismo no papel da ciência mal tinha sido usado para outra coisa que não bombardeios naquela época e que a ciência em si não é uma força civilizadora. “Ele foi, e ainda é, totalmente incapaz de entender que o nacionalismo, a intolerância religiosa e a lealdade feudal são forças bem mais poderosas do que aquilo que ele próprio qualificaria como sanidade” é a conclusão

Nossos tempos de espionagem da vida privada pelo estado, reedição da marcha para a família e outras manifestações ultra-conservadoras, um mundo onde a teletela materializou-se nas redes sociais onde voluntariamente abdicamos da nossa privacidade – patrulhamos e somos patrulhados na pós-privacidade – em nossos filtros bolha de verdades absolutas e incontestáveis mostram a força e atualidade da reflexão Orwelliana.

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